França x Marrocos, o segundo capítulo: por que ninguém mais ri de 21%
A semifinal de 2022 ganha sua revanche em Foxborough, diante de uma torcida que vai soar como Casablanca. A França venceu os cinco jogos que disputou e tem o dono da Bola de Ouro na melhor forma da vida. O Marrocos não perde há 34 partidas. Nosso modelo diz 51,7% França, 21,2% Marrocos — e esta Copa já ensinou a todo mundo o que 21% podem fazer.

Três anos e meio atrás, no Catar, a França encerrou a maior campanha de zebra da história das Copas, 2 a 0, numa semifinal que o Marrocos comenta até hoje. Na quinta-feira, em Foxborough, eles se reencontram, uma fase antes, e quase tudo em volta do confronto mudou. O Marrocos tem outro técnico, um elenco mais profundo e uma invencibilidade de 34 partidas. A França tem um novo atacante que define torneios — e ele não é Kylian Mbappé. E a chave das quartas de final pela qual eles brigam já foi explodida: a Noruega eliminou o Brasil, e a Argentina precisou virar de 0 a 2 para sobreviver ao Egito por 3 a 2. Nosso modelo deu 27% à Noruega naquele jogo. Dá 21,2% ao Marrocos neste. Ninguém mais ri de números assim.
Segundo capítulo, não reprise
A semifinal de 2022 girou em torno de dois momentos: o gol acrobático de Théo Hernandez aos cinco minutos e Kolo Muani empurrando para a rede o chute desviado de Mbappé aos 79. Entre um e outro, o Marrocos — primeira seleção africana e primeira nação árabe a chegar a uma semifinal de Copa do Mundo, depois de eliminar Bélgica, Espanha e Portugal — jogou tudo para cima da França e não conseguiu marcar. Esse é o padrão do confronto inteiro: seis jogos, quatro vitórias francesas, dois empates, e a única "vitória" marroquina veio nos pênaltis, depois de um amistoso empatado em 2 a 2 em 1998. O Marrocos nunca bateu a França dentro dos 90 minutos.
Mas este não é o mesmo Marrocos. Walid Regragui, o rosto do Catar 2022, pediu demissão em março; o homem no banco é Mohamed Ouahbi, nascido na Bélgica, 49 anos, campeão do Mundial Sub-20 de 2025, que recebeu o comando da seleção principal três meses antes do torneio. Seu elenco aposta ainda mais forte na estratégia da diáspora — cerca de três quartos dos 26 convocados nasceram no exterior, contra 14 em 2022 — e ele tomou a decisão mais ousada de todas: deixar de fora Youssef En-Nesyri, maior artilheiro do Marrocos na história das Copas.
O Marrocos chega melhor do que era em 2022
E está funcionando. O Marrocos passou invicto pelo Grupo C — empate em 1 a 1 com o Brasil, 1 a 0 na Escócia e um 4 a 2 sobre o Haiti em que esteve atrás no placar duas vezes e voltou rugindo com Hakimi, Saibari, Rahimi e Yassine. Nas oitavas, desmontou o Canadá, um dos anfitriões, por 3 a 0 em Houston, com os três gols no segundo tempo: Azzedine Ounahi acertando uma bomba de fora da área após escorada de Hakimi em cobrança de falta, Ounahi de novo no contra-ataque após passe de Brahim Diaz, e Rahimi nos acréscimos.
A espinha dorsal agora é de elite de verdade. Achraf Hakimi é o atual Melhor Jogador da África e campeão da Champions League pelo PSG. Brahim Diaz chegou como artilheiro da Copa Africana de 2025, com cinco gols em cinco jogos. Ounahi, a revelação de 2022, agora marca em vez de apenas deslizar pelo gramado. O Marrocos é a primeira seleção africana a chegar a quartas de final em Copas consecutivas, e aquele 3 a 0 em Houston esticou para 34 partidas o recorde nacional de invencibilidade no tempo normal. As preocupações são pontuais: Ismael Saibari saiu mancando aos 22 minutos contra o Canadá, com um problema na parte posterior da coxa — os exames descartaram lesão séria, e o Marrocos está otimista —, enquanto Chadi Riad deve voltar à zaga central na vaga de Redouane Halhal.
A máquina da França, e sua última dança
A França simplesmente venceu tudo: cinco em cinco, 14 gols marcados, 2 sofridos. A fase de grupos produziu o grande momento individual do torneio até aqui — Ousmane Dembélé, atual dono da Bola de Ouro, marcando um hat-trick ainda no primeiro tempo, em 32 minutos, contra a Noruega: o segundo mais rápido da história das Copas, atrás apenas do de Erich Probst em 1954, e o primeiro de um vencedor da Bola de Ouro em exercício desde Cristiano Ronaldo contra a Espanha em 2018. As oitavas produziram o jogo de sofrimento: 1 a 0 no Paraguai, com Mbappé convertendo pênalti após revisão do VAR para chegar ao 19º gol da carreira em Copas e ao 11º em mata-matas — três a mais que qualquer outro jogador na história. Na corrida pela Chuteira de Ouro, ele soma 7, empatado com Haaland, um atrás dos 8 de Messi.
Há um peso de fim de era em tudo isso. Didier Deschamps confirmou lá atrás, em janeiro de 2025, que este é seu último torneio depois de 14 anos, um título em 2018 e uma final em 2022; Zidane, segundo a imprensa, já teria acertado para sucedê-lo. As notícias do elenco são administráveis, mas não limpas: Tchouaméni é dúvida com uma lesão no abdutor, Thuram voltou a treinar sem restrições depois de perder três jogos e deve ficar no banco, e Barcola, Koné e Olise estão todos a um cartão de uma suspensão na semifinal — a FFF pediu à FIFA que anule o cartão de Olise no jogo contra o Paraguai.
Um jogo em casa a 3.000 milhas de casa
Digam o que disserem as escalações, a atmosfera pertence ao Marrocos. A diáspora transformou este torneio numa sequência ambulante de jogos em casa — tambores, cantos e bandeiras em vermelho e verde da Times Square ao Boston Common —, mesmo com muitos torcedores vindos do próprio Marrocos barrados: a associação de torcedores da seleção teve 40 de seus 42 pedidos de visto americano rejeitados, sem justificativas claras. Em Paris, o Grand Rex vai exibir a partida em seu telão, e associações marroquinas na França fizeram questão de dizer que torcer pelo Marrocos não significa rejeitar a França. Deschamps, por sua vez, chamou o Marrocos de "uma das melhores seleções do mundo" e disse que a campanha "não é coincidência".
Mais uma camada de tensão: o argentino Facundo Tello estará com o apito, uma escalação que gerou reação em meio às queixas ainda vivas do Marrocos sobre a arbitragem de 2022.
O que o modelo vê
Nosso modelo — ratings Elo alimentando um modelo de gols Dixon-Coles, rodado via Monte Carlo — aponta França 51,7%, empate 27,1%, Marrocos 21,2% nos 90 minutos. A diferença de Elo é real: a França está em 2009, o Marrocos em 1874. Abrindo o zoom, a França é, na prática, co-favorita ao título, com 22,5%, um fio atrás dos 22,6% da Espanha, com Inglaterra (20,2%), Argentina (19,2%) e, notavelmente, a Noruega (4,9%) atrás. O número do Marrocos para o título é 4,2% — mais ou menos onde a Noruega estava antes de despachar o Brasil.
Vale registrar: nossos 21,2% estão mais quentes com o Marrocos do que os mercados, em que a Kalshi cota a seleção a apenas 15% no tempo regulamentar. O modelo não é sentimental — ele apenas pesa uma defesa que sofreu quatro gols em cinco jogos e um time que não perde há 34.
A leitura honesta: a França é favorita clara e deve vencer, muito provavelmente por um gol de diferença de novo, exatamente como foi em 2022 até o segundo gol no fim. Mas os 27,1% de probabilidade de empate são a manchete silenciosa — o caminho mais realista do Marrocos passa por 90 minutos beirando o zero a zero, uma torcida "da casa" ensurdecedora e a loteria que vem depois. Perguntem à Espanha como isso terminou em 2022. Vitória da França é o palpite. Mas não é resultado garantido, e esta Copa segue punindo quem trata 21% como zero.
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